I
Onde a pediatria fez sentido
Foi trabalhando no interior de Santa Catarina, em Vidal Ramos, Imbuia e Ituporanga, que a medicina fez sentido para mim. Ali eu percebi o quanto um pediatra pode ser útil para uma família.
E percebi também do que eu gostava: investigar. Na pediatria, o diagnóstico muitas vezes está escondido num detalhe que passa despercebido. Ver esse detalhe é o que muda o atendimento de uma criança. Para isso é preciso ler sinais, olhar o contexto e, principalmente, escutar o que os pais percebem.
II
Os anos de plantão
Depois de formado, passei mais de uma década trabalhando quase só em hospital: enfermaria, pronto-socorro, sala de parto. Na enfermaria, muitas vezes havia criança internada demais para um pediatra só, e a visita no quarto precisava ser breve.
O sistema, seja no SUS ou no plano de saúde, pede volume. E a qualidade vira a primeira coisa a ceder. Com o tempo veio um sentimento de impotência: eu sabia que podia entregar mais do que aquele ritmo permitia.
Foi isso que me fez sair e montar um consultório onde a consulta tem o tempo que a criança precisa.
Nenhuma mãe deveria sair de uma consulta achando que a preocupação dela era exagero.
III
Por que o neurodesenvolvimento
A vida me colocou muito perto do autismo. Vi de perto o caminho que uma família percorre até ter uma resposta, e o quanto faltam pediatras preparados para ajudar nesse caminho.
É um tema que quase não aparece na formação médica, nem na faculdade nem na residência. Um exemplo:
Toda criança deveria passar por uma triagem para autismo aos 18 meses. Muitas nunca passam.
Decidi me dedicar a isso. Hoje estudo neurociências e autismo e atualizo minha prática para que nenhuma família precise esperar anos por uma resposta que poderia vir antes.
IV
O que eu quero que você sinta ao sair da consulta
Que eu olhei para o seu filho por inteiro, e não só para o motivo que trouxe vocês até aqui. Que eu quis saber como ele dorme, come, brinca e se comunica, o que mudou e o que você percebe no dia a dia.
Que a sua preocupação não foi tratada como exagero e que em nenhum momento você se sentiu culpada. Que eu acreditei em você quando disse que conhece seu filho e que alguma coisa estava diferente.
E que, pela primeira vez, você saiu sentindo que alguém estava dividindo com você a responsabilidade de compreender a sua criança.